Quando a noite deixa de ser descanso e passa a ser teste

Durante muito tempo, a noite foi apenas isso: noite.
Um intervalo natural entre dias.
Um espaço onde o corpo se retirava, sem perguntas nem exigências.

Mas para muitas pessoas, isso deixou de ser verdade.

A noite tornou-se um momento de avaliação silenciosa.
Um teste que se repete todos os dias.
Uma pergunta que aparece assim que a casa fica em silêncio:
“Será que hoje vou conseguir dormir?”

E quando essa pergunta surge, algo muda.

Dormir deixa de ser um estado.
Passa a ser um objetivo.

Não é medo no sentido clássico.
É uma vigilância subtil.

O corpo deita-se, mas não se entrega.
A mente observa sinais:
o cansaço, o tempo, a respiração, os pensamentos.

Tudo passa a ser interpretado.

Se o sono não vem rápido, surge a tensão.
Se vem, surge o alívio — curto, frágil, condicionado.

A noite deixa de ser repouso.
Passa a ser desempenho.

Há uma diferença importante entre não dormir e esperar para ver se se dorme.

No primeiro caso, o corpo ainda tenta.
No segundo, ele observa-se a tentar.

E quando existe observação constante, não existe abandono suficiente para o sono acontecer.

O sistema nervoso percebe isso como vigilância.
E vigilância não combina com descanso.

Com o tempo, a noite começa a carregar história.

Não é apenas “esta noite”.
São todas as anteriores que falharam.
Todos os dias seguintes que começaram mal.
Todas as tentativas feitas com esforço.

A cama deixa de ser neutra.
Torna-se simbólica.

Não porque seja desconfortável,
mas porque passou a representar expectativa.

É aqui que muitas pessoas se perdem.

Tentam resolver a noite na própria noite.
Mudam rituais, horários, estímulos.
Tentam “fazer tudo certo”.

Mas o problema já não está no que fazem antes de dormir.
Está na relação que criaram com aquele momento.

Quando dormir se torna importante demais,
o corpo sente pressão.

E pressão é o oposto de segurança.

A ironia é esta:
quanto mais precisas de dormir,
menos espaço deixas para que isso aconteça.

Não por erro teu.
Mas porque o descanso verdadeiro exige algo que não se força:
confiança.

Confiança de que não tens de provar nada.
Confiança de que a noite não te vai julgar.
Confiança de que, mesmo sem dormir “bem”, vais sobreviver ao dia seguinte.

A noite volta a ser descanso quando deixa de ser teste.

Quando deixas de avaliar.
Quando paras de medir.
Quando o corpo percebe que não está a ser observado.

Isso não acontece de um dia para o outro.
Nem com técnicas rápidas.

Acontece quando a exigência baixa.
Quando a luta abranda.
Quando a noite volta a ser apenas um lugar onde o corpo pode estar — sem objetivos.

Dormir melhora quando já não precisa de acontecer.

Se a noite se transformou num momento tenso, isso não diz nada sobre a tua capacidade.
Diz apenas que o corpo aprendeu a estar atento.

E tudo o que é aprendido pode, com tempo e segurança, ser desaprendido.

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